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quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Quem me quiser amar

Quem me quiser amar,
que me leve
fechado no meu mistério...

Me leve
como um presente imerecido,
vindo não se sabe de aonde
- sempre com medo que lhe fuja
da caixinha cor da bruma
em que se esconde.

Quem me quiser amar,
me leve, sem se importar
de perguntar o que eu valho.
- Já lhe basta essa alegria
de saber que me possui,
de saber que eu valho mais
que quanto puder pensar.

in Serra-Mãe de Sebastião da Gama

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Versos



Tão cego
apesar da felicidade da vista
tão surdo
apesar do privilégio do ouvido

Uma folha ao vento só tu na romanza
o pássaro na rede Na chuva um cantar
um verme na rosa na esperança uma armadilha
lágrimas na garganta Nas tuas palavras sangue

Tão cego
apesar da felicidade da vista
tão surdo
apesar do privilégio do ouvido

Frantisek Halas

sábado, 4 de maio de 2013

Mimo

Dorme dorme meu menino
Um sono sossegadinho
Manhaninha abre os olhos
Olhos lindos como sonhos
Mima a mãe o seu menino
Mima o menino ao colinho

Mimo me deram a mim
Mimou-me minha mamã
Soube-me tão bem o mimo
Quando era pequenino
Que para mim
O mundo todo
É um jardim.

Luísa Costa Gomes

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Presente original

A Amélia recebeu de presente este lindo soneto, parabéns e obrigada ao amigo autor.
 Vem ao Mundo, meu anjo pequenino
E contempla o sol que te foi dado!
És bebé e os bebés não têm pecado,  
São puros como o próprio Deus-Menino!
A sorte deu-te um berço de ouro fino,
Para teus pais o mais precioso achado!
Há nove meses que eras esperado,
Luz que os Reis Magos levam ao destino!
 A  alegria que a quem te esperou deste,
Seja sempre uma bêção, uma luz
Que hoje, em flor, de harmonia te reveste.
Como em teus olhos tal brilho reluz,
 Mostra esse dom sublime que trouxeste:
Teus olhos são os Olhos de Jesus!
        14 de janeiro de 2012
Honório Baptista de Resende

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Descoberta

Na esperança da luz evoquei a escuridão
Na esperança do som evoquei o silêncio
E aí te encontrei entre a minha sombra e a luz da tua voz.

sábado, 5 de maio de 2012

A Mãe

A mãe
é uma árvore
e eu uma flor.

A mãe
tem olhos altos como estrelas.
Os seus cabelos brilham
como o sol.

A mãe
faz coisas mágicas:
transforma farinha e ovos
em bolos,
linhas em camisolas,
trabalho em dinheiro.

A mãe
tem mais força que o vento:
carrega sacos e sacos
do supermercado
e ainda me carrega a mim.

A mãe
quando canta
tem um pássaro na garganta.

A mãe
conhece o bem e o mal.
Diz que é bem partir pinhões
e partir copos é mal.
Eu acho tudo igual.

A mãe
sabe para onde vão
todos os autocarros,
descobre as histórias que contam
as letras dos livros.

A mãe
tem na barriga um ninho.
É lá que guarda
o meu irmãozinho.

A mãe
podia ser só minha,
mas tenho de a emprestar
a tanta gente...

A mãe
à noite descasca batatas.
Eu desenho caras nelas
e a cara mais linda
é a da minha mãe.

in Poemas da mentira e da verdade de Luísa Ducla Soares

domingo, 15 de abril de 2012

O meu preferido

Aqui na orla da praia, mudo e contente do mar,
Sem nada já que me atraia, nem nada que desejar,
Farei um sonho, terei meu dia, fecharei a vida,
E nunca terei agonia, pois dormirei de seguida.

A vida é como uma sombra que passa por sobre um rio
Ou como um passo na alfombra de um quarto que jaz vazio;
O amor é um sono que chega para o pouco ser que se é;
A glória concede e nega; não tem verdades a fé.

Por isso na orla morena calada e só,
Tenho a alma feita pequena, livre de mágoa e de dó;
Sonho sem quase já ser, perco sem nunca ter tido,
E comecei a morrer muito antes de ter vivido.

Dêem-me, onde aqui jazo, só uma brisa que passe,
Não quero nada do acaso, senão a brisa na face;
Dêem-me um vago amor de quanto nunca terei,
Não quero gozo nem dor, não quero vida nem lei.

Só, no silêncio cercado pelo som brusco do mar,
Quero dormir sossegado, sem nada que desejar,
Quero dormir na distância de um ser que nunca foi seu,
Tocado do ar sem fragrância da brisa de qualquer céu.

in Poesias de Fernando Pessoa

segunda-feira, 26 de março de 2012

Conselho

Cerca de grandes muros quem te sonhas.
Depois, onde é visível o jardim
Através do portão de grade dada,
Põe quantas flores são as mais risonhas,
Para que te conheçam só assim.
Onde ninguém o vir não ponhas nada.

Faze canteiros como os que outros têm,
Onde os olhares possam entrever
O teu jardim como lho vais mostrar.
Mas onde és teu, e nunca o vê ninguém
Deixa as flores que vêm do chão crescer
E deixa as ervas naturais medrar.

Faze de ti um duplo ser guardado;
E que ninguém, que veja e fite, possa
Saber mais que um jardim de quem tu és-
Um jardim ostensivo e reservado,
Por trás do qual a flor nativa roça
A erva tão podre que nem tu a vês...

                                    Fernando Pessoa

segunda-feira, 19 de março de 2012

Pai

Pai,
vens com os olhos cansados,
os dedos gretados,
os pés doridos,
os sonhos moídos.
Onde colheste o sorriso
que me dás
como uma flor ?

in Poemas da mentira e da verdade
de Luísa Ducla Soares

sexta-feira, 9 de março de 2012

Tão fundo de mim

Não sei o porquê?
Porque te sinto longe e só
e me deixas só
e me afastas para tão fundo de mim
onde a escuridão me envolve e abraça.
Tão fundo de mim,
onde o céu tem todas as cores que eu quiser
e sob meus pés há um abismo
onde por brincadeira flutuo
e onde me esqueço de quanto mortal sou.
Aqui não existem relógios,
só o som do meu coração marca o compasso da musica.
Só.Sempre só,
até que a vida lá fora chame por mim.


terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Poema de Amor 5

Eu sei que vou te amar


Eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida vou te amar
A cada despedida
Desesperadamente
Eu sei que vou te amar
E cada verso meu será
Pra te dizer que eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida
Eu sei que vou chorar
A cada ausência tua eu vou chorar
Mas cada volta tua há-de apagar
O que esta tua ausência me causou
Eu sei que vou sofrer
A eterna desventura de viver
A espera de viver ao lado teu
Por toda a minha vida.

I know I will love you
As long as I may live I will love you
Each time we separateI will love you,
With total desperation
I know I will love you
Each verse of mine is made, it's true
To tell you that I know I will love you
As long as I'm alive
I know that I will cry
Every time you are absent I will cry
But each time you return it will erase
Whatever damage your absence
has caused
I know that i will sufer
Endless misadventures in this life
While I await a life with you
To last as long as I do

Antonio Carlos Jobim

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Poema de Amor 4

Fanatismo

Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!

«Tudo no mundo é frágil, tudo passa...»
Quando me dizem isto,toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, digo de rastros:
«Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: Princípio e Fim!...»

Florbela Espanca

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Poema de Amor 3

Música minha, a música tocando
que em bendita madeira os sons recreia
sob os teus doces dedos ondulando,
em concórdia das cordas que me enleia,
invejo às teclas saltitar macio
a beijar-te por dentro a tenra mão
e ficam os meus lábios de pousio,
corando ao pé de ti da ousada acção?
Pois trocavam de estado, nessa airosa
titilação, com nicos tão esquivos,
se da pressa gentil dos dedos goza
madeira morta mais que lábios vivos.
  Felizes teclas, num descaro assim:
  dá-lhes os dedos e a boca  mim.

How oft when thou, my music, music play'st
Upon that blessed wood whose motion sounds
With thy sweet fingers, when thou gently sway'st
The wiry concord that mine ear confounds,
Do I envy those jacks that nimble leap,
To kiss the tender inward of thy hand,
Whilst my poor lips, which should that harvest reap,
At the wood's boldness by thee blushing stand?
To be so tickled they would change their state
And situation with those dancing chips,
O'er whom thy fingers walk with gentle gait,
Making dead wood more blessed than living lips.
  Since saucy jacks so happy are in this,
  Give them thy fingers, me thy lips to kiss.

in Os Sonetos de Shakespeare
trad.: Vasco Graça Moura

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Poema de Amor

 Em minha alma é escrito vosso rosto
e quanto eu escrever de vós anseio:
vós sozinha o escrevestes, eu o leio
tão só que nisto vos evito a gosto.
 Nisto estou e estarei sempre disposto
que, não cabendo em mim o meu enleio,
desse bem o que não entendo creio,
tornando já a fé por pressuposto.
  Eu não nasci senão para querer-vos;
minha alma à sua altura vos talhou;
para hábito de minha alma vos quero;
  quanto possuo confesso já dever-vos;
por vós nasci, por vós na vida estou,
por vós morro, por vós morrer espero.

Garcilaso de La Vega (1501-1536)
Antologia da Poesia Espanhola do «Siglo de Oro» - Renascimento
(organização e tradução de José Bento)

domingo, 15 de janeiro de 2012

Qualquer Música

Qualquer música, ah,qualquer,
Logo que me tire da alma
Esta incerteza que quer
Qualquer impossível calma!

Qualquer música - guitarra,
Viola, harmónio, realejo...
Um canto que se desgarra...
Um sonho em que nada vejo...

Qualquer coisa que não vida!
Jota, fado, a confusão
Da última dança vivida...
Que eu não sinta o coração!

                      Fernando Pessoa

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Aurora

Um trovão fez estremecer a nossa casa.
Um raio incendiou nosso jardim.
A noite azulada escondeu a lua sonolenta.
Um cão uivou e arrepiou a tua pele.
Ficámos juntinhos,
à espera do milagre da luz.
A noite demorou-se no teu olhar.
A madrugada desponta,
o sol espreguiça-se no nosso céu
e seus raios beijam teu rosto, teu eu,
abençoando a tua vida.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Poesia

O Rei de Ítaca

A civilização em que estamos é tão errada que
Nela o pensamento se desliga da mão
Ulisses rei de Ítaca carpinteirou seu barco
E gabava-se também de saber conduzir
Num campo a direito o sulco do arado.

Sophia de Mello Breyner Andresen